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Dopamina e vício: quanto tempo o cérebro leva para voltar ao normal?

O que acontece de verdade com a dopamina quando você para, quanto tempo o cérebro leva para se recuperar e onde a moda do “detox de dopamina” erra na ciência.

O sistema de recompensa do seu cérebro pode se recuperar depois que você para, mas aos poucos. As pesquisas sugerem que o chamado reset da dopamina leva semanas a meses, não dias. Um pequeno estudo com exames de imagem do cérebro concluiu que algumas alterações levaram um ano ou mais para melhorar. Não existe uma data certa.

Vai parar com álcool, benzodiazepínicos ou opioides? A síndrome de abstinência pode ser perigosa, então converse com um médico antes, principalmente se você bebe muito ou todos os dias. A abstinência de álcool pode causar tremores, suor, confusão mental, alucinações e convulsões. Convulsões, febre, confusão mental grave, alucinações ou batimentos cardíacos irregulares exigem atendimento de emergência.

Dopamina e vício: o que ela faz de verdade

A dopamina costuma ser chamada de “hormônio do prazer”, mas não é bem assim. O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) diz que, hoje, os cientistas acreditam que ela tem mais a ver com levar você a repetir as coisas do que com criar prazer.

Pense nela como um sinal de “lembre disso”. Quando acontece algo bom, uma descarga de dopamina avisa ao cérebro que aquilo importa, e assim fica mais fácil repetir a ação, até ela virar hábito.

O seu cérebro libera pequenas descargas diante de recompensas do dia a dia, como comida, música e tempo com outras pessoas. As drogas que causam dependência podem provocar picos muito maiores.

A dopamina também ensina ao cérebro o que anuncia uma recompensa. Com a repetição, as células de dopamina passam a disparar diante dos sinais que vêm antes da recompensa, como lugares, pessoas e estados de humor. É por isso que uma sexta à noite ou uma certa rua podem, sozinhas, despertar uma fissura.

Quando ela bater, ajuda saber quanto tempo a fissura costuma durar.

Tolerância e regulação para baixo, em palavras simples

O NIDA usa a imagem de um rádio alto demais. Quando o sistema de recompensa é inundado repetidas vezes, o cérebro abaixa o volume: produz menos mensageiros químicos ou menos receptores para captar o sinal.

Os cientistas chamam isso de regulação para baixo (em inglês, downregulation). O resultado é a tolerância: você precisa de mais para sentir o mesmo efeito. Os prazeres do dia a dia também parecem mais fracos, porque o volume fica mais baixo para tudo, e não só para o hábito.

A tolerância também diminui depois que você para. Se você voltar a usar depois de um tempo, a quantidade que usava antes pode ser demais. O NIDA alerta que, com algumas drogas, isso pode facilmente causar uma overdose, e a Organização Mundial da Saúde inclui a volta aos opioides depois de um período sem uso entre os riscos de overdose.

A maior parte dessas pesquisas é sobre substâncias. Sobre apostas, videogames e redes sociais, sabemos bem menos.

Por que nada tem graça depois que você para

Quando você para, os grandes picos vão embora, mas o volume continua baixo. Por um tempo, a vida normal pode parecer sem cor.

As refeições podem trazer menos satisfação, os hobbies podem perder o sentido, e pode bater inquietação ou desânimo. O termo médico é anedonia: uma capacidade reduzida de sentir prazer.

Uma revisão sistemática de 32 estudos concluiu que a anedonia é comum em pessoas com problemas relacionados ao uso de substâncias, costuma surgir como consequência do uso e diminui quando a pessoa para de usar. A revisão também mostrou que a anedonia prevê fissuras mais fortes e recaídas.

Por isso, vale a pena se planejar para essa fase apagada, e não só esperar que ela passe. Para ver como costuma ser semana a semana, confira o que esperar dos seus primeiros 30 dias.

Se essa apatia pesar, não passar ou vier acompanhada de desesperança, converse com um médico ou terapeuta. Você não precisa enfrentar isso sem ajuda.

Quanto tempo leva para a dopamina voltar ao normal?

A maior parte do que sabemos vem de pequenos estudos com exames de imagem do cérebro de pessoas que usaram muito durante anos. Cada um mediu uma parte diferente do sistema de dopamina, então os prazos variam.

Hábito O que estava mais baixo Depois de parar
Cigarro A produção de dopamina, em 15% a 20% Voltou a parecer normal em até 3 meses (15 pessoas)
Álcool Os receptores de dopamina D2 Sem mudança clara do início da desintoxicação até 1 a 4 meses depois (14 pessoas)
Cocaína Os receptores de dopamina D2 Ainda baixos 3 a 4 meses depois da desintoxicação
Metanfetamina Os transportadores de dopamina (que reciclam a dopamina) Aumento de 16% a 19% depois de 12 a 17 meses (5 pessoas)

O que isso significa:

  • A recuperação é real. Algumas dessas medidas melhoraram com o tempo longe da substância.
  • Ela nem sempre é rápida nem completa. No estudo sobre metanfetamina, os testes de memória e os testes motores não melhoraram tanto quanto os exames de imagem.
  • Algumas diferenças podem ser anteriores ao hábito. Os pesquisadores do estudo sobre álcool sugeriram que níveis baixos de D2 podem ser um fator de risco que algumas pessoas já têm antes de começar a beber muito.

A moda do “detox de dopamina”: o que é verdade e o que é mito

Um “detox de dopamina” costuma significar passar um ou dois dias longe do celular, de lanchinhos, de música e até de conversas para “resetar” o cérebro. Parte da ideia faz sentido. A maior parte da ciência por trás dela, não.

O que é verdade:

  • Uma pausa planejada, como um detox de redes sociais, pode mostrar com que frequência um hábito atrai você.
  • Menos sinais podem significar menos fissura, então tirar um app da tela inicial do celular ou mudar o caminho de volta para casa pode ajudar.

O que é mito:

  • Não dá para fazer jejum de dopamina. O cérebro a libera o dia todo, em coisas comuns, como comer e conversar. Ela não é um tanque que enche de novo quando você evita diversão.
  • Um fim de semana não reinicia os receptores. Nos estudos acima, essas alterações levaram meses ou mais para mudar, e não um ou dois dias.
  • Cortar todo o prazer não é o objetivo. Como a apatia está ligada à fissura e à recaída, faz mais sentido trazer de volta pequenas recompensas saudáveis.

Como cuidar do seu sistema de recompensa no dia a dia

Você não precisa de produtos vendidos para “aumentar a dopamina naturalmente”. Comece pelos hábitos do dia a dia:

  1. Movimente o corpo. Em um pequeno estudo com pessoas em tratamento pelo uso de metanfetamina, 8 semanas de exercício supervisionado aumentaram os níveis de receptores de dopamina, enquanto uma aula de educação em saúde não teve esse efeito. Veja como o exercício pode ajudar com a fissura.
  2. Proteja o seu sono. Acorde no mesmo horário todos os dias, mesmo depois de uma noite ruim. Em adultos saudáveis, uma noite sem dormir reduziu os níveis de receptores de dopamina em uma área de recompensa do cérebro.
  3. Passe tempo com outras pessoas. Mande uma mensagem para alguém hoje ou marque uma caminhada ou uma refeição juntos nesta semana.
  4. Experimente algo novo. Faça uma receita diferente, toque música ou caminhe por outro trajeto. Se tudo parecer meio apagado no começo, é o esperado.
  5. Conte as pequenas vitórias. Comemore cada semana vencida, marcando no calendário ou com um pequeno agrado. No Guardian Angel, os distintivos de 30, 60 e 90 dias marcam os passos maiores enquanto o seu cérebro se recupera no ritmo dele.

Perguntas frequentes

Por que tudo fica sem graça depois de parar?

O seu sistema de recompensa se acostumou a picos grandes e frequentes, então os prazeres comuns parecem mais fracos no começo. Essa apatia, chamada anedonia, é comum no início e tende a diminuir com o tempo longe do hábito. Mesmo assim, continue fazendo pequenas coisas de que você gosta. Se o desânimo ou a desesperança não passarem, converse com um médico.

Os 90 dias são mesmo um marco na recuperação do cérebro?

Noventa dias é um marco comum na recuperação, mas não é uma linha de chegada biológica. Em pequenos estudos com exames de imagem do cérebro, algumas medidas da dopamina pareciam normais por volta dos três meses, enquanto outras ainda estavam baixas. Encare os 90 dias como uma etapa que merece ser comemorada, e não como um prazo que o seu cérebro precisa cumprir.

Quanto tempo o cérebro leva para se recuperar depois de parar de beber?

Em um estudo com exames de imagem do cérebro de 49 pessoas que pararam de beber, a massa cinzenta já tinha se recuperado em parte em até duas semanas. As alterações nos receptores de dopamina podem durar meses. Se você bebe muito ou todos os dias, procure orientação médica antes de parar.

O detox de dopamina funciona?

Não do jeito que o nome sugere. Não dá para esvaziar nem reabastecer a dopamina evitando diversão por um dia, e as alterações no cérebro ligadas ao vício levam de semanas a meses para mudar. Reduzir os sinais, fazer pausas planejadas e incluir recompensas saudáveis pode ajudar.


Se você quer um jeito privado de ver os seus dias bons se somarem, mesmo os mais sem graça, o Guardian Angel oferece um registro diário para álcool, cigarro ou qualquer outro hábito, além das Análises, que mostram os seus padrões. O download é gratuito, e o seu diário fica no seu celular.

Procure ajuda agora

  • Em caso de emergência: ligue para o SAMU, 192 (Brasil), ou para o 112 (Portugal) se você estiver em perigo ou se sentir muito mal fisicamente, ou se, ao parar o álcool ou outras drogas, surgirem confusão, alucinações ou convulsões.
  • Se você pensa em suicídio ou sente que não aguenta mais: ligue para o CVV, 188 (Brasil), ou para a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio, 1411 (Portugal). As duas são gratuitas e atendem 24 horas.
  • Se for o álcool ou outras drogas: os CAPS AD, de graça pelo SUS (Brasil), ou a Linha 1414, gratuita, nos dias úteis (Portugal).
  • Se você quer parar de fumar: o tratamento gratuito do SUS (Brasil) ou uma consulta de cessação tabágica na sua unidade de saúde (Portugal).
  • Se for o jogo ou as apostas: atendimento gratuito pelo SUS e a autoexclusão (Brasil), ou a Linha 1414 e a autoexclusão do SRIJ (Portugal).
  • Está em outro país? O Find a Helpline reúne linhas de apoio gratuitas e confidenciais de cada país.